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O Ritual da União

06/11/2011

Ugo Giorgetti

Aconteceu num grande clube de S.Paulo. O “grupo estava desunido”, como se costuma dizer quando alguma coisa está acontecendo e ninguém sabe bem o que é. O fato é que havia problemas de relacionamento entre os jogadores e entre jogadores e a comissão técnica. Nada disso ainda tinha chegado abertamente aos jornais. Havia desconfianças, nada de certo. Até que um dia estourou a crise entre a grande estrela do time e o treinador, em conflito aberto, aos olhos de todos.

Não foi mais possível esconder da imprensa a ferida aberta entre um grande jogador e um treinador competente e querido pela maioria. Depois de uns dias de luta, com interferência de empresários, patrocinadores, e demais forças que hoje se movem no interior do futebol, quem perdeu a parada foi o treinador. Embora a contragosto o clube viu-se obrigado a dispensá-lo.

Ao sair o treinador deixou o “grupo” em pedaços com jogadores divididos entre um lado e outro. A diretoria percebendo o estrago reuniu-se à procura de solução e alguém sugeriu a contratação de um psicólogo. A sugestão foi feita por um ex-jogador ligado à diretoria, e um famoso psicanalista foi convidado. Conversaram e o psicanalista, embora distante do futebol, resolveu aceitar o encargo de tentar pacificar e unir o elenco dividido.

O trabalho começou e o experiente profissional logo percebeu as tremendas diferenças entre um jogador e outro. A origem era mais ou menos comum, mas fora disso nada mais os unia. Eram diferentes sobretudo pelas enormes diferenças de status e salários.

Havia uma seleta minoria de dois ou três, protegidos por imensa quantidade de guarda-costas e seguranças em todos os lugares que o time ia, e o resto que não necessitava de proteção alguma porque ninguém se ocupava deles. Havia nos pátios os enormes bólidos importados da minoria e os carros normais dos outros. Com paciência o psicanalista foi fazendo seu trabalho, e, pouco a pouco foi conseguindo resultados.

À força de argumentação, fazendo o grupo raciocinar e compreender as vantagens da união, mesmo que estratégica, começou a ter resultados. As coisas foram pouco a pouco se acertando e os conflitos mais ou menos controlados. Uma coisa, porém, continuava a martelar a cabeça do psicanalista. Não tinha conseguido encontrar nada que unisse de verdade o elenco. Algo que fosse genuinamente comum a todos, titulares e reservas, famosos e menos, ricos e não tão ricos.

Tinha de haver alguma coisa, fora do fato óbvio que todos gostavam de futebol. Tinham se unido novamente quando ele lhes mostrou as vantagens práticas da união, para obter resultados, para suas carreiras, para seus lucros. Mas não havia união espontânea, parecia que cada um falava uma língua, tinha seu próprio código de vida, e que a união era só momentânea.

Ao psicanalista no fundo pouco lhe importava isso. O que mais o interessava é que tinha conseguido os resultados pretendidos: aplacar a crise. Mas, como cientista, essas diferenças irreconciliáveis o desafiavam, e ele observava cada atitude para ver se decifrava o enigma, o fator de união espontânea.

Descobriu um dia, antes de um jogo. Estava por acaso no vestiário quando notou que os jogadores começavam os rituais de proteção. Espantado viu todas as superstições possíveis, todas as crendices imagináveis, simpatias das mais variadas, invocação de proteção como nunca tinha nem sequer pressentido, gestos de sentido oculto, fitinhas, amuletos, pulseiras, palavras misteriosas, lábios que se moviam silenciosamente, às vezes uma antiga oração católica dita com emoção.

Todos os jogadores entregavam sua sorte ao impenetrável e, sem exceção, pediam proteção no campo. Ricos e menos, titulares e reservas , a pequena elite e o resto. Todos sabiam que no campo iam estar sós, que no campo havia forças que não podiam controlar, com designíos misteriosos, que não distinguiam um jogador do outro.

Tinha encontrado o ponto de união entre todos os boleiros, o que os fazia finalmente irmãos, não por instantes, mas todos os domingos antes de entrarem em campo em direção do desconhecido.

Via Estadão

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